Produtores vão ter que se voltar cada vez mais para mecanismos privados de financiamento

*Por Conteúdo Creditares

O fim dos recursos equalizados do crédito rural e a escassez de recursos no caixa do governo federal para subvenção extra reforçaram a participação dos financiamentos a juros livres no campo, alimentados principalmente com as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs). E esse deverá ser o tom até o fim desta safra, em 30 de junho, destaca reportagem do “Valor Econômico” desta quarta-feira (03) de março.

Com desempenho abaixo do apurado na temporada anterior até dezembro, a fonte melhorou a performance e ultrapassou o ritmo de desembolsos do ciclo passado nos dois primeiros meses de 2021. Foram emprestados R$ 20,8 bilhões de julho a fevereiro, aumento de 15% em relação ao mesmo período da safra 2019/20.

Até janeiro, o volume total de crédito das LCAs havia sido apenas 2% maior que na safra anterior. Somente as contratações de investimentos mantiveram alta desde julho. Essas fecharam fevereiro com alta de 160% e R$ 1,8 bilhão contratados. Na B3, o estoque de títulos depositados chegou a R$ 109,7 bilhões.

Com isso, as contratações em geral continuaram aquecidas. Nos oito meses da safra 2020/21, os produtores acessaram R$ 147,5 bilhões, 18% a mais que os R$ 124,7 bilhões no mesmo período da temporada anterior. Nos investimentos, o ritmo é ainda mais acelerado – o aumento foi de 40%, com R$ 47,3 bilhões emprestados. No custeio, o desembolso saltou para R$ 78,8 bilhões, alta de 14%. Os financiamentos com comercialização (R$ 13,3 bilhões) e industrialização (R$ 8,2 bilhões) mantiveram o patamar do ano passado.

Segundo o subsecretário de Política Agrícola e Negócios Agroambientais do Ministério da Economia, Rogério Boueri, não haverá suplementação nos recursos de equalização, aumentando a demanda pelo crédito privado no restante desta safra.

Já a Caixa Econômica Federal anunciou a ampliação do Custeio Agro Antecipado para R$ 12 bilhões. A expectativa da instituição é emprestar os recursos aos agricultores até o fim de março e início de abril. Os pequenos agricultores terão acesso ao financiamento até junho deste ano a taxa de juros a partir de 2,75% ao ano, médios a partir de 4% e demais a partir de 5%.

:: LCAs

“Os produtores vão ter que se voltar cada vez mais para mecanismos privados de crédito que estão bastante acessíveis também”, afirmou ao Valor. “As LCAs são a principal fonte dos recursos livres nos bancos, mas o mercado de Cédulas de Produto Rural (CPRs) está se avolumando também e os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) estão ficando mais fortes no mercado”.

Esse já é o cenário em Mato Grosso, principal produtor de soja do país. No Estado, os recursos livres acessados no sistema financeiro são o segundo principal meio de custear as lavouras do grão. Dos R$ 25 bilhões demandados na safra 2020/21, 24% saíram dessa fonte, atrás apenas das operações de barter com multinacionais (35%). Movimento bem diferente do ciclo 2014/15, quando esse dinheiro representava apenas 10% do funding total.

O superintendente do Instituto Mato-grossense de Economia Agrícola (Imea), Daniel Latorraca, disse que o aumento do limite de crédito por produtor melhorou o enquadramento dos mato-grossenses. “É natural esse movimento dos recursos livres. Os bancos conseguem ofertar mais e não têm as amarras do crédito oficial. Isso atrai produtores que não estavam bancarizados, com quase a mesma taxa acessada fora do sistema financeiro” afirma.

Segundo o Imea, com o aumento do PIB agropecuário, a oferta de crédito tornou-se mais atrativa para as instituições financeiras, tendência que vai se manter na safra 2021/22.

Na opinião de José Carlos Vaz, ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura e ex-diretor de Agronegócios do Banco do Brasil, os investimentos com recursos subsidiados beneficiaram mais os grandes produtores. Para ele, a diminuição da exigibilidade dos depósitos à vista, que têm juros controlados sem equalização, que recuou de 30% para 27,5% nesta safra, e a manutenção da fatia financiável de máquinas e equipamentos – que deveria ser menor para exigir mais recursos próprios -, foram erros que poderiam ter evitado a falta de equalização para pequenos e médios agricultores.

“Volumes importantes de recursos deixaram de ter encaminhamentos mais prioritários. O Plano Safra foi bom para o produtor, mas poderia ter sido menos oneroso para o Tesouro Nacional”, opinou.

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